Reflexões sobre feminismo e conjuntura

Ao longo dos anos, o feminismo tem se consolidado como uma arma teórica e prática fundamental de crítica ao capitalismo e ao neoliberalismo.

 

Em um momento em que as mulheres têm sido atacadas em direitos historicamente conquistados, em um momento, por outro lado, de reanimação internacional das manifestações feministas e às vésperas do 8 de março, dia internacional da mulher, há muita coisa em pauta. Nesse contexto, diversas feministas têm se dedicado a entender e explicitar de que forma a teoria feminista pode dar contribuições fundamentais à crítica da sociedade capitalista atual e oferecer chaves para a construção de uma sociedade mais justa.

Silvia Federici nos relata, em sua obra O Calibán e a Bruxa, que a chamada caça às bruxas foi um longo processo de estigmatização e perseguição de mulheres já na decadência da idade média e que culminou com um dos maiores genocídios da história. Esse processo foi fundamental para a constituição do sistema capitalista que necessitava estabelecer o controle sobre os corpos e a capacidade reprodutiva das mulheres, sobre os seus saberes e sua força de trabalho, para a implantação do trabalho assalariado e das relações modernas de produção e reprodução.

A cientista política estadunidense Carole Pateman, em O contrato sexual, critica os contratualistas que, ao contarem o mito fundador da sociedade moderna burguesa, o contrato social, estabelecem que os homens são indivíduos livres para realizarem contratos, mas silenciam sobre o contrato sexual, a sujeição das mulheres – que seriam objetos, e não sujeitos, do contrato. Nesse ponto, é relevante lembrar que as mulheres, em boa parte dos países centrais, dependiam de autorização dos pais e depois dos maridos para saírem de casa, estudarem, trabalharem. Tudo isso estabelecido pela família e pelo contrato de casamento. A constituição do exército de trabalhadores assalariados nos países centrais, livres das amarras para produzir mercadorias e mais valia, com macacões limpos e marmita feita, dependeu em grande medida da figura espectral da dona de casa, mesmo quando ela mesma trabalhava “fora”.

Portanto, diversas autoras feministas apontam para o fato de que a constituição do capitalismo moderno dependeu do controle da sexualidade das mulheres, de sua capacidade reprodutiva para gerar filhos, mãos de obra futuras, e da dupla exploração da sua força de trabalho. Esse seria o patriarcado moderno que perdura até hoje. Portanto o patriarcado moderno é a formação social na qual o capitalismo se baseia, em que os homens como classe detêm o poder e o reproduzem porque se beneficiam dele. E antes que alguém diga que há mulheres machistas, eu afirmo que elas existem de fato, mas como classe elas não se beneficiam disso. Até as mulheres que hoje possuem posições privilegiadas no neoliberalismo se beneficiaram das conquistas da luta feminista coletiva.

Feministas negras estadunidenses, como Angela Davis, Patricia Hill Collins, bell hooks; de perspectiva decolonial, como Ochy Curiel, Maria Lugones e Yuderkys Miñoso; feministas brasileiras, como Lelia Gonzales, Beatriz Nascimento, Suely Carneiro, dentre outras, têm apontado o quão insuficiente é a análise da situação das mulheres na América se não for levado em conta o colonialismo, a escravidão e suas permanências, chamando atenção do próprio movimento feminista para essas dimensões, ao mesmo tempo em que resgatam movimentos e lideranças que, antes mesmo de ser consagrado o nome feminismo, realizaram forte resistência a essas estruturas de opressão coloniais, escravocratas e patriarcais.

Nas palavras de Ochy Curiel:[1] “se entendemos o feminismo como toda a luta das mulheres que se opõem ao patriarcado, teríamos que constituir sua genealogia considerando a história de muitas mulheres em muitos lugares-tempo. Este para mim é um dos principais gestos éticos e políticos de descolonização: retomar distintas histórias, pouco ou quase nunca contadas.”

A história do Brasil é marcada por figuras que se tornaram símbolos da luta das mulheres (Alambert, 2004) como: Dandara e Aqualtune, ligadas à resistência do Quilombo dos Palmares (1605 – 1694); Zeferina, liderança da resistência do Quilombo do Urubu (1826); Luiza Mahin, ligada à revolta dos Malês (1835), sempre resgatadas pelo movimento feminista negro.

Nesse sentido, a descolonização é entendida como uma prática política e epistemológica de quem percebe que a sua opressão enquanto mulher é articulada às opressões de raça, etnia e classe como pilares centrais, uma vez que nossa sociedade foi constituída a partir da invasão de nosso território, da colonização e da escravidão. É entendida como a necessidade de romper com modelos eurocêntricos de pensamento, buscando categorias baseadas na nossa própria história para entender nossos fenômenos. Admitir que não há uma mulher, mas várias mulheres, é romper com essa universalização moderna. É entender que só o diverso pode gerar uma verdadeira solidariedade e caminhos de transformação.

Para citar um exemplo.

[1] Ochy Curiel. Descolonizando el feminismo: una perspectiva desde America Latina y el Caribe, 2009.

Uma parcela do movimento feminista se debruçou a combater o mito da fragilidade feminina, que justificava seu impedimento de trabalhar fora de casa e ficar sob a proteção dos pais e maridos. Desestabilizando a visão universalista de mulher Sueli Carneiro[2] contrapõe: “nós, mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como frágeis. Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam durante séculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas… Mulheres que não entenderam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar. ”

E por que isso é importante?

Porque como fruto do acúmulo de riquezas do capitalismo em sua fase neoliberal e para que o próprio sistema consiga se legitimar socialmente produzindo subjetividades, vemos a ascensão seletiva de algumas mulheres a espaços de poder no capitalismo. Essas mulheres possuem privilégios frente aos diversos sistemas de opressão social e muitas vezes desenvolvem políticas liberais e não emancipatórias.

[2] Sueli Carneiro. Enegrecer o feminismo: a situação da negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero.

Bell Hooks[3] chama atenção para a necessidade de afirmação de um projeto emancipatório e coletivo para o feminismo que considere gênero, raça e classe social. hooks problematiza ainda que a ideia de que retomar o caráter coletivo do movimento feminista não implica em uma homogeneização da experiência das mulheres nem na ideia de que há um sofrimento comum entre todas as mulheres, como se a opressão de mulheres pobres e ricas, negras e brancas não pudesse ser medida nem comparada.

As dimensões de classe e raça evidenciam diferenças de distribuição de recursos e de status sociais que alteram de forma bastante concreta as experiências dos sujeitos na sociedade. Nesse sentido, é preciso considerar que um componente importante da opressão é a ausência de opções, mas algumas mulheres possuem mais opções que outras e o feminismo deve dar conta dessas disparidades.

Apesar de não poder haver uma régua que meça objetivamente o nível de sofrimento dos sujeitos, uma vez que há uma série de matizes na sociedade, é preciso ter parâmetros históricos que sirvam de referência para avaliar as situações, contra o risco de cair em um enorme relativismo. A imbricação de sistemas de opressão de gênero, raça e classe deve, portanto, ser considerada nessa análise.

[3] Bell hooks. Mulheres Negras moldando a teoria feminista, (2015).

Para Nancy Fraser[4], a tentativa de cooptação do movimento feminista pelo neoliberalismo se deu a partir de uma readaptação estrutural do capitalismo que incorpora seletivamente pautas do feminismo, levando à fragmentação entre os aspectos políticos, econômicos e sociais, além da supressão das formulações mais radicais contra o capitalismo, expostas com forte projeção nas décadas de 1960-1970. Para ela, na passagem para o neoliberalismo, o capitalismo tenta incorporar certas dimensões da crítica feminista para os seus próprios propósitos. Promove uma política de identidades e um culturalismo que, em prol do reconhecimento, abre mão da redistribuição econômica. Some então a crítica ao capital e aparece a meritocracia e o sucesso individual.

A incorporação das mulheres então excluídas do mercado de trabalho, apesar de atender a uma reivindicação do movimento (sobretudo das mulheres brancas de classe média), silencia sobre a dupla jornada de trabalho das mulheres, a disparidade salarial e a situação das famílias chefiadas por mulheres. O sucesso de algumas mulheres no mercado de trabalho não é acompanhado de uma socialização do cuidado, mas da transferência desse encargo para as empregadas domésticas, em sua maioria negras, o que é uma herança escravocrata.

Apesar disso, o feminismo entendido como um movimento social coletivo, possui muitas divergências com o neoliberalismo, cujo  avanço tem representado para a maioria das mulheres graves retrocessos:

– Flexibilização das condições de trabalho e redução dos salários, condição que atinge em especial as mulheres, sobretudo as mulheres negras;

– Retirada de direitos sociais e cortes de verba nas áreas de saúde, educação e previdência, o que aumenta a carga das mulheres com o trabalho do cuidado;

– Aumento do conservadorismo e do fundamentalismo religioso que visa o aumento do controle dos corpos e da vida das mulheres.

– Repressão aos movimentos sociais e reivindicativos.

– Aumento da militarização do mundo e nas cidades fazendo com que conflitos sociais tenham resposta ainda mais violenta.

Para não cair nessas armadilhas, a relação intrínseca entre as lutas é fundamental. Portanto a aposta recai sobre a necessidade de se construir uma prática política que considere a imbricação dos sistemas de dominação como sexismo, racismo e capitalismo, no que Patricia Hill Collins chama de matriz de opressão. Isso dará um sentido radical e transformador ao feminismo.

O movimento feminista tem uma longa história de lutas, enfrentamentos e formulações políticas. O feminismo também tem formulado uma epistemologia que vem desestabilizando o lugar neutro da ciência e da produção do conhecimento a partir da visão de sujeitas historicamente invisibilizadas e subalternizadas. A luta feminista tem tornado o mundo um lugar melhor para as mulheres, crianças e para o conjunto da sociedade. Por isso, frente aos ataques neoliberais, sua importância como movimento político e combativo pode ser fundamental.

Por fim vale lembrar a frase da poeta feminista negra estadunidense Audre Lorde: “não serei livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas.”

 

[4] Nancy Fraser, O feminismo, o capitalismo e a astucia da história,(2009).

Texto por:

Natália Alves


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